CRÔNICA | 15 DE OUTUBRO — DIA DO PROFESSOR
15 DE OUTUBRO — DIA DO PROFESSOR
Hoje, as redes sociais se enchem de homenagens aos professores. Surgem frases bonitas, mensagens emocionadas, fotografias antigas, declarações de gratidão e discursos sobre a importância da educação. Por algumas horas, somos lembrados como aqueles que transformam vidas, constroem futuros e carregam nas mãos a responsabilidade de ensinar. Mas, quando as homenagens terminam, fica uma pergunta incômoda: que valor tem celebrar o professor em um dia do ano, se, nos outros 364 dias, tantos precisam lutar para serem respeitados?
Há uma hipocrisia silenciosa nas mensagens que exaltam a nossa missão, mas ignoram as condições em que ela é exercida. É fácil escrever que o professor transforma o mundo. Difícil é garantir que ele tenha condições dignas de trabalho, salários justos, autonomia, segurança e respeito. É fácil dizer que educar é um ato de amor. Difícil é reconhecer que amor nenhum deveria ser usado como justificativa para a exploração, o adoecimento, a sobrecarga e o silenciamento de quem educa.
Ser professor, hoje, também é correr riscos. É enfrentar o assédio, a intimidação, a desautorização e, por vezes, a violência de uma sociedade que parece ter perdido a capacidade de respeitar aqueles que dedicam a vida à construção do conhecimento. É trabalhar em um sistema educacional que, muitas vezes, cobra resultados sem oferecer condições, exige inovação sem disponibilizar recursos e transforma números, índices e metas em medidas de sucesso, enquanto deixa em segundo plano aquilo que realmente importa: a formação humana, o pensamento crítico, a cultura e a capacidade de compreender o mundo.
É também assistir, com tristeza, à desvalorização dos livros, da leitura, da História, da arte e de tudo aquilo que nos ensina a pensar para além das aparências. Em uma sociedade que desconfia do conhecimento, despreza a cultura e trata o pensamento crítico como ameaça, ensinar pode se tornar um ato de resistência. Afinal, quem ensina alguém a pensar também ensina alguém a questionar — e nem todos estão dispostos a conviver com perguntas que desafiam seus privilégios, suas certezas e suas conveniências.
E não podemos ignorar a responsabilidade das autoridades que discursam sobre o futuro, mas nem sempre valorizam, na prática, os profissionais que deveriam construí-lo. Tampouco podemos deixar de falar das famílias que, em vez de estabelecerem uma parceria com a escola, algumas vezes transferem a ela todas as responsabilidades pela educação dos filhos e enxergam o professor como adversário, não como aliado. Educar é uma responsabilidade coletiva. A escola não pode, sozinha, reparar todas as feridas sociais, substituir a presença familiar ou resolver problemas que ultrapassam os limites de uma sala de aula.
Por trás de cada professor existe um ser humano. Alguém que também sente medo, cansaço, frustração e tristeza. Alguém que enfrenta seus próprios problemas, mas precisa encontrar forças para acolher, orientar, explicar, ouvir e recomeçar. Alguém que, mesmo depois de um dia difícil, ainda carrega a esperança de que uma palavra, uma aula ou uma página lida possa abrir novos caminhos na vida de um estudante.
Não escrevo isso para negar a beleza da profissão. Pelo contrário: escrevo porque acredito demais nela para aceitar que seja tratada com tamanha indiferença. Acredito no poder dos livros e dos cadernos, na força das perguntas, na importância da memória, na riqueza da cultura e na possibilidade de construir um mundo menos injusto por meio da educação. Mas acredito, sobretudo, que não existe verdadeira valorização do professor enquanto o discurso de reconhecimento não se transformar em respeito cotidiano, condições dignas de trabalho e compromisso real com a educação.
Neste 15 de outubro, não quero apenas receber parabéns. Quero que a sociedade reflita sobre o que faz com aqueles que escolhem ensinar. Quero menos homenagens automáticas e mais compromisso. Menos frases prontas e mais políticas públicas. Menos discursos emocionados e mais respeito. Menos cobranças injustas e mais responsabilidade compartilhada.
Porque não basta aplaudir o professor quando ele inspira. É preciso respeitá-lo quando ele questiona, apoiá-lo quando ele enfrenta dificuldades e protegê-lo quando sua dignidade é ameaçada.
Feliz Dia do Professor a todos aqueles que continuam empunhando livros e cadernos em uma sociedade que, tantas vezes, parece preferir a ignorância à reflexão, o preconceito ao conhecimento e o silêncio à verdade.
Seguimos ensinando não porque o caminho seja fácil, mas porque sabemos o preço de uma sociedade que abandona a educação. Seguimos porque, apesar de todas as contradições, ainda acreditamos que cada estudante merece a oportunidade de pensar, escolher, compreender e transformar a realidade.
E talvez essa seja uma das maiores contradições de ser professor: lutar diariamente para que o mundo seja melhor, mesmo quando o próprio mundo parece não reconhecer o valor dessa luta.
Ensinar é semear possibilidades. Valorizar quem ensina é assumir a responsabilidade pelo futuro que desejamos colher.
Por: Professor Nelson Noronha
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